terça-feira, julho 03, 2012


A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA



1. - O que é dignidade?

Para falarmos de dignidade é preciso que antes tenhamos claro em nossa mente o que significa a palavra dignidade. Podemos qualificá-la como a “qualidade moral que infunde respeito; consciência do próprio valor” [1], quando dizemos que alguém é digno de receber algo, está indicando que a pessoa é merecedora de tal coisa. Dignidade é aquilo que é próprio à pessoa, que faz parte da sua natureza. A interioridade é a nota específica do homem e o que o torna superior com relação aos animais: ela faz que o homem seja “homem”. Os homens têm como atributo essencial a interioridade, e isto os distinguem dos outros animais lhes dando uma dignidade que lhe própria.

1.1 – A dignidade na atualidade

Hoje, encontramos um grande problema, para o homem atual tudo é relativo, não a nada que tenha uma verdade absoluta. Graças ao “relativismo” [2], o “niilismo” [3] e outras correntes filosóficas, o conceito de verdade está ainda mais difícil de ser definido, uma vez que, cada uma dessas correntes “filosóficas” tem uma visão do que pode vir a ser a verdade. Nossa sociedade busca a cada dia pelo sucesso, Sucesso nas ciências, na tecnologia, na arquitetura; esquecendo, assim, dos valores absolutos e inteligíveis, vivendo somente em vista dos valores materiais, presa no plano da imanência, esquecendo totalmente de sua dignidade e igualando-se aos animais que agem por extinto de sobrevivência. Deixa de viver com profundidade e consciência aquilo que o torna verdadeiramente ser humano, isto é, não mais valoriza aquilo que é, passando a valorizar somente o aquilo que é capaz de produzir.

Para o homem moderno não existe verdade absoluta, nem valores absolutos em meio à sociedade. A verdade, bem como os outros valores, devem se adequar a diversos tipos de situações e de linhas de pensamentos. O que é verdadeiro para uns, pode ser falso para outros. Tudo é relativo, tudo pode ser construído de acordo com a necessidade do momento. Não existe uma distinção do que são os valores universais e particulares, só o que existe é a preocupação nas vantagens ou prejuízos para o desenvolvimento da sociedade. É a busca desenfreada pelo o poder e a riqueza. Assim, é difícil falar de dignidade, de respeito à pessoa, na nossa sociedade estes valores tornaram-se um tema que não mais interessa, porque o homem do “novo tempo” pouco a pouco se tornou materialista e consumista ao extremo.

1.2 – O que é pessoa?

O homem não é somente mais uma criatura, uma peça do “grande quebra cabeça” que chamamos de mundo. Ele é uma pessoa, ou seja, um ser corpóreo e espiritual. Tem a capacidade de raciocinar, tem vontade, pode controlar seus impulsos. É o único ser que pode mergulhar no seu próprio interior e refletir sobre seus atos “Com isto manifesta-se a falta de interioridade do animal, que está sempre fora de si, dependente do mundo externo. Nós, ficamos cansados só de ver a cena dos chimpanzés; o qual indica que nos resultaria impossível manter uma atenção ao exterior tão aplicada e intensa como a do animal. A atitude do homem é diferente. Embora também ele vive no mundo e está rodeado pelas coisas, sua atenção não está tão ocupada que não lhe permita um momento de sossego para estar consigo mesmo. O homem pode separar-se das coisas e entrar dentro de si mesmo”[4]. É um ser subsistente o mais perfeito na natureza. A pessoa, portanto, não se perde entre outros seres, nem se confunde com eles. Padre Ramón Lucas Lucas em seu livro O Homem Encarnado diz “É o ser mais separado, mas incomunicável por razão de sua mais perfeita subsistência, ao mesmo tempo em que é o mais aberto e mais profundamente engrenado com todos os seres graças a sua racionalidade”.[5]

A dignidade do homem não deve ser medida por título, cargo, posição social, raça, etnias ou riqueza. O homem é digno por ser homem; por ser um ser racional-espiritual; por ser criado a imagem e semelhança do seu Criador e por isso é um ser naturalmente aberto ao absoluto. É por tudo isso que o homem tem dignidade, e esta deve ser respeitada. A dignidade do homem (pessoa humana) não pode ser medida por aquilo que tem ou faz e sim por aquilo que ele é ontologicamente.

1.3 – Quando ou onde começa a dignidade da pessoa?

A pessoa humana já existe ontologicamente desde o momento de sua concepção, já na sua primeira célula (visto que as sucessivas são fidelíssimas repetições, com o mesmo código genético). É pessoa porque “possui o ato de ser que é próprio do homem: um ato de ser admiravelmente espiritual, que informa e transforma a matéria. É pessoa mesmo que tenha apenas começado a realizar suas inumeráveis e ilimitadas possibilidades”.[6] Embora não esteja perfeito, com todas as partes do corpo já formadas, é um individuo. Depende da mãe, mas não é uma extensão do seu corpo. Não se pode negar de nenhuma forma sua atividade vital e sua individualidade.

Não podemos medir a dignidade deste novo ser, por sua aparência ou capacidade (já que muitos alegam que o feto em seus primeiros dias de vida não é uma pessoa por não ter uma atividade cerebral). Ele já é um novo ser, um novo homem, está se desenvolvendo, se aperfeiçoando corporalmente, mais é uma pessoa com a mesma dignidade dos demais. Já estar perfeito e acabado no coração de Deus seu Pai e Criador, “antes mesmo que fosse gerado no seu de sua mãe eu te conheci e te escolhi para ser profeta entre as nações[7]. O aborto é a negação da vida e consequentemente, um desrespeito a dignidade do ser humano.

Não podemos ser a favor de algo que se posiciona contra a dignidade humana, não se pode negar ou relativizar algo que é própria do homem, que está intrinsecamente ligado a ele. Negar o valor que tem o ser humano, é reduzi-lo a um animal ou objeto qualquer, é negar a essência humana, é tirar aquilo que lhe é essencialmente de direto. Pode haver várias linhas de pensamentos, muitos discursos, no entanto, a verdade é uma só “o homem é um ser, uma pessoa, constituída de dignidade e valores que lhe é essencialmente próprios e estes ninguém pode tirar-lhe.





Roma, 03 de Julho, de  2012.


Seminarista Acival Vidal de Oliveira


[1] Dicionario eletronico Houaiss
[2] É a dotrina que admite que todo o conhecimento (ou todo o conhecimento humano) é relativo “Que afirma a relatividade do conhecimento humano e a incognoscibilidade do absoluto e da verdade”. Cf. LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Critico da Filosofia. Trad. Fátima Sá Correia, Maria Emília V. Aguiar, José Eduardo Torres e Maria Gorete de Souza. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 947
[3] Doutrina segunda a qual nada existe (de absoluto) “É uma redução ao nada; aniquilamento; não-existência. Ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência”. Ibidem., p. 731
[4] LUCAS, Ramón Lucas. Antropologia Filosófica – O Homem Encarnado. Trad. Fintan Mary Lawless. São Paulo.
[5]Idem, p. 88.
[6] Michael Ryan, L.C. Ética Social. Trad. Fintan Mary Lawless. São Paulo.
[7] BIBLIA de Jerusalém, Ge. 1, 5-6

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