quinta-feira, maio 03, 2012


CATEDRA DE PEDRO OU CÂMERA DO PADRE?



Nas minhas aulas de comunicação abordei muitas vezes o assunto “dissidência calculada”. O pregador e seu grupo tem um ponto de vista. O papa e os bispos praticam outro. Para não baterem de frente contra as autoridades, detendo eles algum meio de comunicação recorre a algum documento do passado que os autoriza a continuar praticando a fé do jeito deles, quando papa e bispos autorizam e praticam do jeito novo. É o neo conservadorismo que adota modernidade em alguns quesitos e voltam ao passado no quesito que lhes interessa voltar. São dissidentes calculados. Não obedecem sem desobedecer.. E dão um jeito de chamar de desobedientes os que não se regem pelos mesmos textos que eles. Tendo a mídia nas mãos eles parecem os bons católicos e quem ousa aderir às mudanças autorizadas passa por católico tíbio. Já vimos este filme em vários capítulos.
O assunto eucaristia tem causado essas divisões. Ainda temos católicos que sistematicamente desafiam as normas das dioceses e paróquias alegando que os líderes dos seus movimentos estão acima da diocese e da paróquia. Ouvem primeiro o padre do seu grupo e, só depois, o papa, os bispos e o pároco. Teimam em receber a eucaristia só na boca, nunca nas mãos e fazem a genuflexão antes de comungar, mesmo que por razões da diocese o bispo tenha dispensado todo o ritual. O argumento de um desses sacerdotes é o de que comunhão nas mãos é mera concessão e , se um dia , um papa quiser abolir todo mundo terá que voltar a comungar na boca e ajoelhar-se e benzer-se antes de receber a eucaristia. Em outras palavras, o ritual de ontem era melhor do que o de hoje…
O papa e os bispos fazem e autorizam, mas eles pregam rebeldia de seus membros, dizendo aos mais fervorosos que não são obrigados a aceitar as normas da diocese. O padre terá que lhes dar comunhão do jeito antigo se não quiserem aceitar a prática daquela diocese. Vale mais palavra do pregador de televisão do que o bispo que mora naquela região. Pronto! Está estabelecido o confronto e a rebeldia: o padre da televisão contra os padres e os bispos da diocese. O fiel escolhe se segue os padres dos seu movimento querido que os levou a sentir Jesus ou os padres e o bispo da diocese onde ele mora. Adivinhe com quem o fiel fica?
O papa já foi visto dando comunhão nas mãos e não só em casos excepcionais. Os bispos o fazem quase sempre, mas o padre da televisão disse com toda a autoridade que não tem que o jeito correto é seguir o ritual antigo. Em outras palavras: quem autorizou está errado e certo está quem comunga só na boca e se ajoelha antes em gesto de adoração. Só este é respeitoso…
As razões da diocese não valem…Enfrentei este tipo de rebeldia nos anos 70 quando houve em São Paulo um surto de meningite e os médicos pediram ao cardeal que não permitisse comunhão na boca por conta do risco de se difundir ainda mais o vírus pela saliva. Alargamos as portas , pusemos dutos que permitissem mais escoamento do ar e adotamos a prática da comunhão nas mãos.

Não poucas vezes enfrentamos católicos que advogavam seu direito de comungar pela boca. Foi muito simples. Ou aceitavam as normas da diocese ou não receberiam o Cristo do jeito deles. Alguns iam embora batendo os pés no chão e depois nos atacavam pela mídia. Passado o risco os bispos mantiveram o novo costume.
Quarenta anos depois, num sábado, véspera do dia das missões, vejo um sacerdote pregar pela mídia a mesma dissidência calculada. Muitos fiéis o seguirão. Outra vez a palavra do padre inteligente se sobrepõe sorrateiramente à palavra dos bispos e párocos. Alguém alegará que ouviu o padre XYZ a falar na televisão que o certo e o direito é o antigo ritual: de joelhos ou na boca. Mas o que diz o antigo ritual? E o que diz o direito canônico sobre a autoridade dos bispos? O que deve prevalecer? O que diz o padre da televisão ou o que dizem os bispos?
Há uma mídia católica que coopera com as dioceses. Há outra que passa por cima da autoridade do bispo. O fiel escolha. Cátedra de Pedro ou câmera do padre?

Pe. Zezinho

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